#Desabafo

22 de fevereiro

Tô meio perturbada, e não sei se o problema sou eu. Deve ser. Não sei por onde começar, então vou tentar explicar novamente os motivos que me fizeram querer mudar de igreja. E como isso se intensificou hoje, e acredito que irá se intensificar mais futuramente. Também quero fazer considerações no final para não parecer injusta ou prepotente. Quero avaliar a situação no geral.

Depois que comecei a seguir nas redes sociais uma pluralidade de irmãos em Cristo, fui exposta a debates e reflexões. Aprendi muita coisa interessante com eles: seus pontos de vista teológicos, como conciliar política e religião e interpretações precisas da Bíblia, o que chamam de exegese, se não me engano. Numa dessas interpretações que li sobre Apocalipse 3:15-16 e percebi que tinha aprendido ela “errado” na igreja, ou melhor, eu tinha ouvido uma interpretação não tão biblicamente precisa da passagem.
A explicação é que Cristo nunca disse que ser frio é sinônimo de ser ímpio, como ouvi falar, e que ser quente não é ser cheio do Espírito Santo. Na verdade, a passagem é bem clara em dizer que é preferível que a igreja de Laodiceia seja fria ou quente! E estudando a fundo o contexto histórico, Laodiceia ficava próxima de duas cidades importantes: Hierápolis, com suas fontes termais, ricas em minerais, com utilidades terapêuticas, e Colossos, com águas frias vindas das montanhas, boa para consumo. Laodiceia, por sua vez, dependia de aquedutos que traziam água de longe, e quando chegava à cidade, estava morna e inutilizável. Ou seja, a morna não era uma água útil igual à quente e a fria. Mas por que então interpretar esse texto tão rico de maneira simples e sufocar seu significado original (para caber na teologia Pentecostal de Avivamento)?

Acredito que fui ficando mais consciente do que andava ouvindo dentro da igreja e comecei a questionar internamente. E é aí que reside o problema! Porque questionar a mensagem que vem do pastor, ou de outro líder, é questionar a Deus, ou sua palavra, que é inerrante. E quando afirmo isso, não quer dizer que concordo, mas é o alerta que ouço contra “o coração duro" ou o “desobediente que acredita que não tem nada a ver” que não aceitou totalmente o que foi dito no culto. Afinal, o preletor é um pastor levantado por Deus, com curso de Teologia concluído, experiente na fé. Eu não sou estudante de Teologia, sei pouca coisa da Bíblia, e acredito que tenho muito o que aprender com Deus ainda. Mas olha, ainda há coisas que são ditas que me incomodam e questiono não por ser teimosa, mas porque sinto que são conclusões simplórias.

Vamos para um exemplo que ocorreu há anos atrás: Era um culto de domingo, e acredito que a ideia do Pastor era pregar sobre arrependimento. Eu não me recordo muito bem, mas a mensagem que foi dada (como verdadeira) para criar um paralelo com confissão de pecados e arrependimento era um conto sobre a águia. Chega um determinado momento em que a ave precisa passar por uma automutilação, arrancando suas garras, penas e bico. E esse processo doloroso permite que ela se recupere e "suba de nível", podendo viver mais anos. Depois da mensagem, o pastor instruiu os membros a confessarem seus pecados para o irmão que estava ao lado, homem com homem e mulher com mulher. Na época, eu confessei e fui vulnerável com uma desconhecida. Eu era adolescente, btw. Mas agora, adulta, eu nunca confessaria pecados a um desconhecido, por mais que ele fosse irmão em Cristo. Acredito que não é assim que as coisas devem funcionar. Na confissão de pecados, é necessária uma relação próxima e de confiança com alguém, e não foi isso o que aconteceu. Ainda sobre essa noite, quando cheguei em casa, fui para o computador pesquisar esta história da águia, porque foi uma novidade para mim nunca ter ouvido falar dessa característica. Fiquei gag quando descobri que era mentira, e que se tratava apenas de um conto motivacional.

Outros pontos que me irritam profundamente são a forma extremamente rasa e moralista como se tratam os seguintes temas: álcool e música. Uma igreja que demoniza o consumo de bebida alcoólica moderado, para mim, não é séria e não entendeu princípios basilares, mas aí eu posso estar exagerando… Parece que falta maturidade de lidar com o tema e ensinar aos fiéis a respeito do domínio próprio e de um bom testemunho, e orientar aos que têm problema com vício a se abster e procurar ajuda em Cristo e na medicina. Parece que não há nuances e que tudo deve ser oito ou oitenta. E na falta dessa maturidade, sobra até para o capeta. Já ouvi mais de uma vez que um cristão que tem bebidas alcoólicas em casa abre brecha para o inimigo; e quem bebe está endemoniado. Esses ensinamentos também criam, querendo ou não, um preconceito acerca de quem bebe moderadamente.

E isso não é diferente com músicas. Tem até nome/distinção para isso, chamam de "música do mundo". Como se toda melodia que não é gospel fosse automaticamente imprópria para o cristão. O que não é verdade. De novo, na doutrina da comunidade da qual eu frequento, não há um trabalho de conscientizar os fiéis para avaliar o que convém escutar, o ideal é não tratar músicas seculares com moralismo, e sim com coerência. E tudo isto é tratado como bobagem por mim, justamente por eu ter uma noção do que é legalismo e do que é graça comum. Não entendem que, ao dizerem que é pecado ouvir "música do mundo", isso pode e deve recair em outros tipos de arte. Se não pode ouvir música que não é cristã, também não poderemos ver filmes, ou até mesmo consumir literatura não cristã. Seguindo a lógica, se não pode um, o outro também não! E não me interprete mal. Eu sei que um cristão deve sim se atentar para o que consome, e que arte não é desculpa para bebermos de fontes erradas, mas como disse anteriormente, não há orientações bíblicas, o que sempre escuto é condenação e o bater do martelo, o 8 ou 80.

Hoje mesmo na Escola Bíblica Dominical, um pastor transferido nos deu aula sobre caráter, e disse que teve vício em "música do mundo" (me pergunto se a palavra vício foi usada corretamente), mas ele basicamente disse que um dos processos de santificação dele foi parar de ouvir músicas que não são cristãs. E afirmou o seguinte:

→ "Satanás era ministro de louvor lá no céu. Depois que foi expulso, qual área você acha que ele domina e trabalha?"

→ "Tem gente que diz que toda melodia vem de Deus. Mentira! Deus cria melodia lá no céu, não aqui na terra." Dando a entender que toda música que não é gospel é do capeta. O que é uma simplificação terrível!

E, para finalizar, hoje mais cedo, durante o culto, fiquei assustada com as coisas que escutei. Você sabia que demônios podem tomar posse de roupas? Pois bem, eu explico: a pregação foi um estudo bíblico sobre as maldições, porque elas acontecem e os tipos de maldição.
Aprendemos que na Bíblia existem 3 delas (o chatGPT puxou 4, mas não sei ao certo):
"alah" significa uma maldição que ocorre na vida de quem quebrou alguma aliança com Deus, seja por desobediência ou por prometer algo e não cumprir.
"qalal", significa um tratamento de desonra ou zombaria. Um desprezo. Exemplo disto é Golias contra Davi em 1 Samuel 17:43-44. E foi a partir daqui que fiquei confusa, porque o Pastor disse que quando Golias amaldiçoou (ridicularizou) Davi, ele invocou 3 entidades (?). Deduzo que deve ser porque Golias era politeísta.
E, por último, "arar", que descreve pessoas que estão debaixo de maldição por conta de palavras que são liberadas para sentenciar e causar desgraça (de maneira consciente e inconsciente) na sua vida (eu interpretei isso como algo psicológico do que espiritual, mas posso estar errada). Pastor falou que, quando soltamos palavras ruins para alguém que está em pecado, a maldição se concretiza. (??) Ou seja, se você estiver pecando e alguém te amaldiçoar, ela irá pegar. (???) E usou de base Mt 12:34-35.

Foram listadas situações que causam maldições, e foi o que me deixou mais maluca:

E, por fim, disse que não comprou algo que tinha estampa de caveira... E começou, a meu ver, preconceito com caveira .-. Estampa de caveira é brecha pipipopo, preconceito com bebida abublebublé, invocação de demônio porque tem álcool na sua casa tralalalá...

Dito isso, darei as considerações finais:
Fico pensando se não é besteira da minha parte me irritar com essas situações, a ponto de querer sair desta igreja e ir para outra. Porque até então nada de grave foi cometido. Apesar de tudo, ainda é uma comunidade saudável. Mas acredito que existem outras igrejas que são mais bíblicas e sérias do que essa e com uma doutrina (melhor) da qual estou interessada no momento.
Gostaria de deixar claro que não sou dona da razão e que esse texto não é uma forma de descredibilizar ou falar mal do pastor ou líderes da igreja que frequento.